A teoria do valor germina, nasce, floresce e cresce em fins do século XV, frutificando-se, mais ainda, em meados do século XVIII e por todo o século XIX. Basicamente, são as idéias iniciais vigentes no sistema econômico transitório conhecido como mercantilismo que ascendem o debate pré-econômico.
Vigorava, a época, a premissa de que o comércio e a indústria artesanal eram as fontes de riqueza das nações por serem geradoras de acúmulo de metais preciosos e moeda para aquelas nações. Prevalecia, ainda, a idéia de que um forte protecionismo dos mercados efetuado pelo Estado garantiria o fortalecimento das nações mais poderosas.
Tal ênfase proporcionou, indubitavelmente, uma revolução comercial em contraponto ao feudalismo reinante em decadência; por outro lado, no que diz respeito a teoria do valor, prevalecia uma espécie de valor-setorial em benefício da burocracia pública da época e dos comerciantes-mercadores.
Com a escola fisiocrata a categoria valor-setorial permanece, porém, seus representantes mudam o foco da valorização setorial comercial para valorização setorial agrícola, argumentando que, somente, a terra era geradora de valor e riqueza.
Aqueles representantes do pensamento econômico, em latência e efervescência, avançam suas críticas aos mercantilistas, afirmando que o comércio e pequenos artesões industriais eram geradores, sim, de concentração de riquezas, pois, davam preferência às especiarias e manufaturados finos, mantendo um consumo supérfluo e artesões escravos do luxo.
Por tudo isso, reforçaram a idéia do fator terra e da agricultura como o setor mais importante para os países, elevando, paralelamente, a tais ideais, a máxima do laissez faire - laissez passer (deixar fazer - deixar passar), embrião do liberalismo econômico em oposição ao protecionismo mercantilista.
No âmago dessas discussões, a ciência econômica ganha corpo com o surgimento de uma obra seminal e de vulto: A Riqueza das Nações, do escocês, Adam Smith, quando apresentou naquele livro a natureza e as causas da riqueza das nações, enfocando que toda atividade produtiva gera valor como resultante do fator trabalho.
Constroí-se, a partir de Smith, uma nova categoria de valor: a do valor-trabalho. Para este economista não eram os setores que geravam valor, mas sim, todo e qualquer trabalho laborioso. Este escocês ficou conhecido como o Pai da Economia, por ter discutido os primeiros conceitos econômicos de maneira sistematizada e marcados pela neutralidade científica com a criação da categoria do valor-trabalho, a título de exemplificação.
Todavia, a preocupação smithiana atraiu novos pensadores que deram foco além da produção, mas também, na distribuição das riquezas, por isso, preservaram a categoria valor-trabalho, porém, passaram a discutir como remunerar melhor os diversos trabalhos executados quando comparados entre si e quando relativizados com a renda dos capitalistas, dos proprietários de terras, dos produtores agrícolas, etc.
Mas foi Marx que veio dizer que a desproporção entre salários e outras rendas somente existia por causa da mais-valia, ou seja, numa análise microeconômica, e a partir da observação do trabalhador isolado e explorado, absoluta e relativamente, o lucro existia por causa da extração da mais-valia, para ele, o trabalho mal pago e não remunerado.
Isso tudo foi debatido por causa das precárias condições de trabalho e das remunerações selvagens praticadas pelos capitalistas, sedentos, também, por mais capital para novos investimentos.
Nesse paradoxo entre remuneração de trabalhadores e remuneração de capitalistas, criado com a categoria valor-trabalho, outro problema afigurava-se: os recursos tornavam-se cada vez mais escassos, provocando freqüentes crises no sistema produtivo dos países capitalistas.
Com a nova categoria de análise em pauta, as discussões sobre produção, distribuição e acumulação de riquezas encontravam-se no auge, no entanto, para superar o trade-off distributivo, foi preciso alguns anos, até que os neoclássicos-marginalistas elaboraram, no início do século XIX, a categoria do valor-utilidade.
Em suma e na essência, a mensagem dada foi que todo bem possui seu valor de uso e seu valor de troca; possui também seu valor-trabalho, todavia, um bem sem utilidade não existe demanda para o mesmo, em complemento, diga-se, não há demanda (efetiva) sem consumo e nem consumo sem investimentos.
A questão maior é que, tanto trabalhadores como investidores capitalistas são restritos pela escassez de recursos, por isso, utilizar racionalmente tais recursos, significa alocar (destinar) eficientemente esses mesmos recursos, orientando-se, os primeiros, pela teoria do consumidor, e os capitalistas, pela teoria da firma.
Mais que isso, com a categoria valor-utilidade, a decisão de investir ou consumir seria respaldada pela soberania subjetiva do capitalista ou do trabalhador, desde que, ambos, considerassem em suas decisões, a utilidade que cada bem (de consumo ou de capital) lhes proporcionaria ou não.
Toda essa ligeira volta que fizemos ao pensamento econômico ido, contribui, quero acreditar, para que não se permita que a história se repita por falta de evolução e o que se repete não transcorre, embora se tenha clareza, que nada existe fora da verdadeira história reconhecida e aceita socialmente.
Isto dito, a valoração, que difere de valorização (da teoria do valor), buscada para e pelo “ambientalismo pop”, parece estar nos conduzindo à um retrocesso teórico-prático, no sentido de que a tentativa é de retomar, consciente ou inconscientemente, uma espécie de valor setorial, ou seja, o valor-ambiental, inextricavelmente, ligado a natureza e a terra.
Em minha modesta compreensão, reforça-se, pelo ângulo econômico, não há como negar que o ativo ambiental natural é algo de interesse da humanidade, em face da depredação dos recursos naturais e da destruição e contaminação do meio ambiente por produtos ditos “tóxicos” mal-utilizados. Todavia, da maneira como essa discussão vem sendo conduzida e imposta, é possível e provável que um retrocesso de monta irá provocar estragos nunca vistos.
Por quê? Primeiro, não se “valoriza” algo ou nada, a partir de julgamento de valor (valoração); segundo, não se “valoriza” algo ou nada, apenas e tão-somente, a partir de mercados de commodities realizados em bolsas de valores, até porque, o “fait acomply” de crise é recente; terceiro, “valorar”, e não “valorizar”, crédito de carbono como atividade econômica, manterá intacta a estrutura produtiva brasileira, caracterizada pela alta concentração produtiva em grandes porções de terra; quarto, manutenção da divisão internacional do trabalho de maneira inflexível; e, quinto, não se reduz pobreza e analfabetismo sem crescimento econômico distributivo, pelo contrário, amplia-se o crescimento subdesenvolvido e desequilibrado.
É oportuno esclarecer que não se objetiva desconsiderar a importância e necessidade do crédito de carbono; a questão é deixar claro, o quanto possível, que não se trata apenas de uma decisão ou preocupação de utilidade ou custo de produção, mas sim, de custo de oportunidade, pois, se os usos normais e correntes de determinados recursos em determinada atividade forem alocados em uma outra atividade, a capacidade de receita futura somente será alcançada por novos e acréscimos de novos investimentos, se o retorno proporcionado por esses recursos forem bastante alto para justificar a aplicação do novo investimento dos recursos (escassos) disponíveis em decorrência da não aplicação dos recursos correntes em atividades anteriormente normais.
Seguindo o leito dessa construção crítica, há que se ratificar, também, que o inadequado uso e manejo dos recursos naturais e do meio ambiente na esfera global têm uma relação direta com as desigualdades sociais no que margeia a distribuição dos benefícios do desenvolvimento, por isso, não tem como deixar no ostracismo, a diferenciação entre os conceitos de desenvolvimento econômico sustentado do conceito de desenvolvimento sustentável, sendo este último, importantíssimo, porém, suas dificuldades operacionais, ainda, impedem que seja formulado teórica e empiricamente.
Para superar tal impasse, há que se reconhecer que sem proteção ambiental o desenvolvimento econômico fica comprometido e sem desenvolvimento econômico não há proteção ambiental, e para tanto, a busca por opções reais para tal impasse requerer-se-á que, num curto espaço de tempo possível, os países desenvolvidos transfiram aos países de crescimento subdesenvolvido (tradicional e irracional) recursos e técnicas acumulados de que dispõem.
Somente assim, quero crer que, se um dia o homem indagou se ele era produto do meio, hoje e amanhã, poder-se-á perguntar se o meio poderá ser produto (sustentável) do homem.
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Ernani Lúcio Pinto de Souza é técnico licenciado da UFMT, mestre em Planejamento do Desenvolvimento e responsável pelo escritório de economia Valor Estudos & Pesquisas.