“Às vezes não se tem a percepção de que a inflação é decorrente da impressão de pedaços de papel que passam a valer muito mais do que seu custo de produção, desde que tenham a assinatura de uma autoridade”.
Além da emissão da moeda manual, há também o aumento da moeda bancária, através de empréstimos gerados por depósitos em conta corrente. O estímulo aos Bancos é a manutenção da taxa de juros dos títulos federais abaixo do juro real, sempre definida pelos Bancos Centrais de cada país.
A política antipática de ter que pagar juros altos para poder vender seus papéis para pagar suas despesas (por gastar mais que recebe de tributos) não é mais necessária.
Parece um sonho, todas as necessidades são atendidas, os créditos se ampliam dia-a-dia, há garantia de emprego e a distribuição de renda está sendo realizada sem ter que “esperar fazer o bolo crescer”.
Esta é a fase de maior aprovação do governo.Mas como em todo sonho, acordamos, e aí a realidade é outra, é neste momento que os créditos decrescem , é a crise, o início do fim da expansão artificial, é a segunda fase do ciclo econômico, a “recessão”.
Diferente do que o conhecimento empírico indica, a recessão é a parte boa do ciclo, pois resgata os erros cometidos pelo excesso de moeda e crédito.
Mas a duração deste período depende do tempo que levou o sonho ou da insistência dos governos em continuar emitindo moeda ou criando crédito artificial.
Se o governo voltar a aumentar a base monetária, a sociedade não pode voltar a sonhar?
Sim, mas acordará com o pesadelo da hiperinflação.
Estas afirmações são comprovadas pela teoria econômica (departamento da economia que formula princípios, teorias, leis e modelos), desenvolvida por Mises, denominada de Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos que afirma:
“...Guardar dinheiro (na sua carteira, em uma lata de estanho no quintal, debaixo da cama, etc.) não é uma forma de poupança. O saldo de caixa - ou o efetivo disponível - pode aumentar sem que as preferências temporais tenham diminuído, que é o que ocorre quando se poupa. (Com efeito, uma pessoa poupa porque sua preferência temporal diminui). É possível que uma pessoa aumente seu efetivo disponível diminuindo seu gasto com consumo e também com bens de produção. Poupar, por outro lado, significa diminuir o gasto com bens de consumo e aumentar o gasto com bens de produção.
O fato de que poupar normalmente envolve um intermediário (i.e., um banco) que vai permitir que outra pessoa gaste com bens de produção e em nada altera essa questão. O dinheiro é inerentemente a um bem presente; guardá-lo significa que se está "comprando" alívio em relação a uma atual inquietação quanto a um futuro incerto. (Vide Hoppe [1994] e Hoppe et al. [1998] para uma discussão sobre a natureza do dinheiro). Fazer empréstimos que têm como lastro depósitos a vista (dinheiro de terceiros que, teoricamente, pode ser sacado a qualquer momento) não pode facilitar a compra de bens de produção (para a criação de bens futuros em detrimento de bens presentes) - e olhe que ainda nem estamos fazendo qualquer consideração quanto aos aspectos jurídicos envolvidos.
O aspecto crucial em relação ao dinheiro é que ele permite o cálculo econômico, a comparação entre as receitas esperadas advindas de uma ação e os seus custos potenciais, tudo isso se baseando em uma unidade comum. Ou seja, uma pessoa adquire propriedade em troca de outra propriedade tendo por base seu julgamento quanto ao futuro, e isso seria impossível - ou, mais ainda, sem sentido - caso não houvesse uma unidade comum para comparar as alternativas. Dinheiro é propriedade, e em um sistema monetário que faz parecer que existe mais propriedade para a produção do que de fato há, o colapso é inevitável.
Não é preciso tentar imaginar se os empresários "leem" corretamente as taxas de juros ou não. Empresários fazem julgamentos sobre o futuro e, é claro, podem sempre estar potencialmente errados; o sucesso não pode ser sabido de antemão. Entretanto, os julgamentos sempre serão errados quando uma pessoa se defrontar com a ilusão de que há um maior conjunto de poupança do que as atuais preferências dos consumidores podem de fato justificar. Essa é exatamente a situação estabelecida pelo sistema bancário - como intermediários entre poupadores e produtores, ou "investidores" - atualmente no Ocidente. Esse sistema garante que haverá erros, não obstante não impeça o sucesso; daí a existência de um genuíno crescimento econômico ao lado de vários maus investimentos.
Essa análise não é uma insistência moralista para que a economia seja basicamente fundada em algo "real". É um reconhecimento de que meros desejos subjetivos não podem transformar em realidade mais propriedades do que as que já existem. Caso um sistema monetário dê a ilusão de que as preferências temporais dos consumidores - como fornecedores de propriedade para propósitos de produção - são menores do que realmente são, então a estrutura de produção construída sobre tal sistema é inerentemente equivocada. Quaisquer planos que aparentem ser plausíveis durante a fase inicial da expansão econômica (boom), inevitavelmente revelar-se-ão errados devido a uma insuficiência de propriedade (poupança real). Esse é o ponto mais importante da Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos. A Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos: Uma Breve Explanação”Disponível em:<http://www.mises.org.br.>Acesso 03.05.2009.
Para quem acredita nas ciências para explicar os fenômenos sociais, aí está uma teoria que só poderá ser substituída quando outra explicar com mais propriedade do que a atual.
Claro que cada país cria a seu próprio ciclo econômico. No Brasil tivemos uma experiência na fase da transição democrática, nos 15 anos anteriores ao real que a política econômica, tinha que justificar as esperanças “das diretas já”, criou-se o ciclo econômico pela emissão da moeda e como
“conseqüência uma inflação acumulada de 20.759.903.275.651%, a maior da história da humanidade seguida de uma tragédia distributiva. (Gustavo Franco, citado em Direito e Economia da ETCO, pg.60 editora Saraiva)”.
Não podemos imaginar que não exista a interferência entre os países, não só pela quantidade de importações e exportações, pela multiplicação da balança de serviços, pelo livre trânsito dos capitais e principalmente pela adoção do dólar americano como moeda de troca internacional.
Estas inter-relações podem criar condições propícias, mas “não geram os ciclos econômicos”, estes só existirão quando os Guardiões Monetários, “os governos”, resolverem aumentar a base monetária se seus países acima das reais necessidades econômicas.
No Brasil não foi diferente, criamos o nosso ciclo econômico que teve um período de expansão com o início do fim, na crise de outubro de 2008 e agora na plena recessão.
A crise não pode ser apelidada de recessão, pois ela é o marco do último estágio da expansão, ou então o primeiro estágio da recessão. A crise é a crista, o pico do ciclo.
Quando o atual governo foi eleito, tinha que provar rapidamente que podia transformar em realidade seu discurso de distribuição de renda e pleno emprego, ao mesmo tempo, provar à classe empresarial que teriam créditos longos e baratos para investirem e crescerem.
O seu compromisso da segurança jurídica de respeitar os contratos garantiu os investimentos internacionais.
Mas era impossível esperar um aumento natural da poupança para viabilizar rapidamente esta promessa de política econômica, então tivemos o início do plano econômico, já experimentado no passado recente, que foi:
1º. Crescimento da base monetária de 2003/2008
· M1 (moeda manual em poder do público+ depósitos à vista)....133%
· M2 (fundos+títulos federais em poder do público)......................156%
· M3 (depósitos de poupança).......................................................153%
· M4 (títulos privados).....................................................................156%2º. Baixa da taxa Selic (juros pagos pelo Governo pelos seus títulos)
· Março de 2003 .......................................................................... 26,50%
· Março de 2008........................................................................... 11,25%
As conseqüências da fase de expansão artificial:
1º. Diminuição dos juros da dívida 04/2006 até 02/2009.........40 bilhões
2º. Gasto com aumento de pessoal 04/2006 até 02/2009.......40 bilhões
3º. Desemprego: 2003 – 13% em 2008 – 7%
4º. Aumento da reserva de dólares (com emissão de real):
o 2003 – US$ 30 bilhões em 2008 – US$ 206 bilhões
5º. Custo do dólar (entrada de dólares ao mercado):
o 2003 US$ 1 custava R$ 3,50
o 2008 US$ 1 custava R$ 1,55
A situação 4º. e 5º. Ocorreram graças à política monetária americana adotada pelo FED do aumento exponencial de emissão do dólar, distribuído para o Mundo.
6º. Aumento das reservas bancárias disponibilizados pelo BACEN indica que 12/2007 o aumento em relação à 12/2006 foi de 27,1% e 01/2008 em relação 01/2007 aumentou 30,3%. Quanto maior as reservas bancárias maiores o volume de empréstimos originários de depósitos de correntistas, aumentando a base monetária, pela emissão da moeda escritural ou bancária. (ROQUE, Leandro. Ascensão e queda da economia brasileira. Disponível em http://www.mises.org.br)
Com dólar barato e transbordando, importamos muitos produtos chineses com baixos preços graças ao “dumping de capital humano”. Crédito barato, abundante e de longo prazo, ampliou a mecanização do setor primário, aumentando a produção agrícola brasileira a números históricos.
Esta combinação de fatores foi responsável pelo controle inflacionário, mesmo com o maciço aumento da base monetária.
Com muito dinheiro em circulação e com preços estáveis, o resultado é um aumento de renda e de poder de compra. Com juros baixos e muito crédito e segurança de emprego tem-se uma euforia social, percebida principalmente pelas classes de menor renda, que passam a consumir bens e serviços de maior valor agregado. Neste período, o presidente do Brasil tinha aprovação superior a 80% dos brasileiros.
Parte deste dinheiro se dirige para alguns mercados específicos criando as bolhas. No Brasil, um exemplo foi a Bolsa de Valores, que em 26/02/2003 o índice Ibovespa tinha 9.994,80 pontos e em 20/05/2008 o índice era 73.516,81 pontos, significando que em 5 anos houve uma valorização das principais ações em 635%. Hoje a bolha desinflou e o atual índice oscila entre 40 a 45 mil pontos.
A economia pode ser enganada por um certo tempo, mas não por todo o tempo.
Moeda é um instrumento de troca. A caneta é um instrumento para escrever. A caneta não faz poesia. Tampouco a moeda produz bens, serviços ou recursos produtivos.
Qualquer desaceleração mais prolongada na expansão do crédito irá arrefecer o crescimento econômico, não é necessário que o crédito se contraia; basta que ele cresça a uma taxa menor, e a recessão virá.
A tabela do BACEN, citada acima, demonstra o decréscimo das reservas bancárias, que inicia em 02/2008 chegando em 11/2008 com um decréscimo em relação a 11/2007 de -27,1%, portanto, com menos crédito inicia-se a recessão brasileira, como afirma Mises.
Atitudes do governo para uma recessão rápida:
· Parar a inflação monetária.
· Não salvar empresas insolventes.
· Não estimular aumento de salários ou de bens de capital.
· Não estimular o consumo.
· Estimular a poupança.
· Não aumentar seus gastos.
Caso contrário, fica a certeza do prolongamento da agonia com uma duradoura e crônica inflação, cenário semelhante aos 15 anos antes do plano real.
Como afirma o Diretor do Clube de Vienna, Jonas Faga Jr., “Não é o fim do Mundo, é o fim de um Mundo dominado pelo dólar”
Prof. Luiz Carlos Barnabé de Almeida
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