Análise Econômica: MT precisa liderar transição do 'Fazendão' para a agroindústria, defende Emanuel Daubian

26/06/2026

Em entrevista à jornalista Laura Campos, presidente do Corecon-MT analisa o retorno do Brasil ao "Top 10" econômico global, critica a dependência de commodities brutas e aponta os desafios da política monetária nacional.

O recente avanço dos indicadores econômicos nacionais e o protagonismo indiscutível de Mato Grosso no cenário de comércio exterior foram os temas centrais da entrevista concedida pelo presidente do Conselho Regional de Economia de Mato Grosso (Corecon-MT), economista Emanuel Daubian, ao programa Giro Massa, conduzido pela jornalista Laura Campos. Durante o encontro, o dirigente analisou o crescimento de 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre e a projeção de que o país retome a 10ª posição no ranking das maiores economias mundiais.

Embora reconheça o bom momento dos indicadores — como o desemprego em patamares historicamente baixos (5,8%) e o fortalecimento do mercado consumidor interno pela saída do mapa da fome —, Daubian adotou uma postura cautelosa. Ele ponderou que o crescimento quantitativo difere do desenvolvimento estrutural estruturado e de longo prazo.

O teto do modelo "Fazendão"

Questionado sobre a concentração da balança comercial brasileira nas commodities e no desempenho de Mato Grosso — responsável por quase 40% do saldo comercial do país —, o presidente do Corecon-MT fez um resgate histórico. Ele homenageou o pioneirismo de instituições como a Embrapa e as políticas de infraestrutura e colonização iniciadas na década de 1980 que transformaram o "Nortão" no motor agrícola global.

Contudo, Daubian alertou que o modelo atual baseado na exportação de matéria-prima bruta e importação de insumos (como fertilizantes) aproxima-se de um limite físico e sustentável. Ele utilizou o termo teórico "fazendão" para ilustrar um sistema que, apesar de bilionário, tende a concentrar renda e terras, reduzindo empregos diretos no campo devido à intensa mecanização e tecnologia (uso de drones e colheitadeiras avançadas).

"Vai chegar um momento em que não haverá mais terra disponível, a menos que se destrua a Amazônia ou terras indígenas, algo que não queremos. Os produtores serão obrigados a pegar o lucro do próprio agronegócio e investir na indústria local. É a hora da mudança para a agroindústria", asseverou Daubian, comparando a necessidade atual com o processo histórico vivido por São Paulo na época dos barões do café.

Para o economista, Mato Grosso já deveria contar com indústrias de fertilizantes próprias para evitar a dependência de zonas de conflito internacional (como o Estreito de Ormuz e a Rússia), além de plantas voltadas para os setores de celulose e cosméticos de alto valor agregado.

Injustiça tributária e circulação de renda

Ao traçar paralelos com países desenvolvidos, o economista desmistificou o debate sobre a carga tributária brasileira. Segundo Daubian, nações de alto bem-estar social (como Dinamarca, Finlândia e Canadá) operam com tributação média entre 40% e 45% sobre a renda, enquanto o Brasil gira em torno de 34%. O grande problema nacional, segundo ele, reside na distribuição do ônus.

O sistema brasileiro penaliza excessivamente os mais pobres ao focar em impostos indiretos (consumo), enquanto economias consolidadas priorizam a taxação sobre renda e patrimônio. Daubian destacou o papel fundamental dos programas de transferência de renda (como Bolsa Família e BPC) para mitigar distorções e irrigar o comércio das periferias urbanas — citando o exemplo de expansão socioeconômica de regiões tradicionais como o bairro Pedra 90, em Cuiabá.

O dirigente defendeu que os incentivos fiscais concedidos ao agronegócio não podem ser eternos e que os orçamentos públicos precisam olhar de forma mais equilibrada para o pequeno produtor, responsável pela produção de alimentos básicos como arroz, feijão e mandioca.

Críticas aos juros e à política monetária

Outro ponto de forte debate foi a condução da política monetária pelo Banco Central, com a taxa Selic fixada em patamares elevados (entre 14,5% e 15% ao ano). Daubian posicionou-se na corrente de economistas que discorda do uso quase exclusivo dos juros para conter oscilações inflacionárias quando estas são geradas por choques de oferta (como inundações, secas no campo ou os reflexos logísticos de conflitos no Oriente Médio sobre o preço dos combustíveis).

Ele explicou que a taxa de juros elevada penaliza diretamente o setor produtivo e o consumo das famílias de baixa renda, estimulando o rentismo.

"Quando o juro sobe, o empresário refaz os cálculos e prefere deixar o dinheiro rendendo na renda fixa do banco, sem risco, a abrir uma fábrica e gerar empregos. É o remédio amargo que, se dosado em excesso, pode paralisar o paciente", resumiu.

Por fim, o economista destacou a interdependência entre a taxa brasileira e as decisões do Banco Central Americano (Federal Reserve), explicando que a estabilização geopolítica externa continua sendo um fator chave para que o país possa consolidar um ciclo duradouro de redução de juros.

Para assistir à entrevista completa concedida ao Giro Massa, acesse o Link: https://www.youtube.com/watch?v=TteSWQBi4uA

Fonte: Andressa Boa Sorte/Assessoria de Imprensa Corecon-MT.